Busco o silêncio na minha medida
Olho-me, vejo-me, desconheço-me.
Peso em mim, meu peso
Que se forma da minha fome
Como, como e como.
Cresço e não me envaideço
Problemas de forma
Ou fora de contexto
Crespo?
Ou sem pretexto?
FÁBIO CAIM

SEM HISTÓRIA, SEM LEMBRANÇA
Quero ser a insanidade corroída pela raiva doida da minha ferida. Eu me torno algo repudiado, porque ouso sentir. É, justamente, quando estou vivo, quando me fazem sentir a vida, que exigem que eu me esconda.
Estou cansado de me sufocar, quero bradar, uivar e esbravejar minha solidão. Quero confrontá-la com o que passa em meu coração.
Deixo sair, esforço-me para ao menos ouvir o eco que se forma entre uma veia e outra. A pulsação exala odores de sangue em meu peito. É a vida. Quero me abrir e amanhecer inconformado e insatisfeito, sem entender ninguém, sem ao menos ouvir ninguém. Não desejo mais a esperança radiante de um sorriso, apenas o conforto de braços que me queiram.
Meu céu não está na boca, os dentes são os caninos antigos, que me lembram de algo quase perdido em outras vidas. Um instinto de força e preservação. Eu luto contra quem? Ou contra o quê?
Não luto, deixo que me levem. Carregam-me pelo braço, apoiando meu quadril em suas mãos fortes, erguendo meu corpo como se em sacrifício e prestes a ser jogado na boca do vulcão. Sinto o calor se aproximando e o suor esvaziando meu desejo, escorro em doces gotas pela face.
Sinto-me de gesso, corpo trabalhado em detalhes, entalhado com pequenas ferramentas, sem rugas ou rachaduras, de pele suave e tons claros, pintados por pincéis delicados, contornado em apanhados de sensações escorregadias.
O barulho infernal do silêncio me faz estremecer de dor. Faz com que o meu corpo sangre e escorra pelo chão limpo. Ouço o sangue escorrendo e as gotas caindo. O peito incha e, de repente, o coração pulsa freneticamente. A solidão me cerca. Mostra sua pior face. Trannsforma-se no desespero insano.
Não há mais espaço. Sinto como se eu nunca tivesse existido. Talvez a minha vida toda tenha sido ilusão. Talvez eu tenha desejado viver. Não há histórias, não há lembranças, as memórias simplesmente não existem. Não existe casa, nem uma cama para eu dormir. Não existe fome, não há comida. Não ouço nada, não sinto nada, não vejo nada. Talvez eu tenha desejado existir. Mas paguei um preço muito caro por sentir. A única certeza é a dor. Meu corpo não existe mais.
Fá e Paty - 25/04/2004
Entorpece
Com pés tortos e andares vacilantes
Distorce
Visão torpe e olhares andantes
Amortece
Consciência distante e desejos piscantes
Forma-se
Contorno e entorno de todo o mal
Reage
A todo o amor que a vida é capaz
Morde, rasga, despedaça
Sangra
A carne quente, o coração ainda pulsante
Chora
Por amor
De ódio
Ama
Fábio Caim e Patricia Santos - 14/11/2003