QUASE DE VERDADE
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." - Clarice Lispector
Domingo, Junho 27, 2004

INSANIDADE CORROÍDA

Quero ser a insanidade corroída pela raiva doida da minha ferida. Eu me torno algo repudiado, porque ouso sentir. É, justamente, quando estou vivo, quando me fazem sentir a vida, que exigem que eu me esconda.
Estou cansado de me sufocar, quero bradar, uivar e esbravejar minha solidão. Quero confrontá-la com o que passa em meu coração.

Deixo sair, esforço-me para ao menos ouvir o eco que se forma entre uma veia e outra. A pulsação exala odores de sangue em meu peito. É a vida. Quero me abrir e amanhecer inconformado e insatisfeito, sem entender ninguém, sem ao menos ouvir ninguém. Não desejo mais a esperança radiante de um sorriso, apenas o conforto de braços que me queiram.

Meu céu não está na boca, os dentes são os caninos antigos, que me lembram de algo quase perdido em outras vidas. Um instinto de força e preservação. Eu luto contra quem? Ou contra o quê?

Não luto, deixo que me levem. Carregam-me pelo braço, apoiando meu quadril em suas mãos fortes, erguendo meu corpo como se em sacrifício e prestes a ser jogado na boca do vulcão. Sinto o calor se aproximando e o suor esvaziando meu desejo, escorro em doces gotas pela face.

Sinto-me de gesso, corpo trabalhado em detalhes, entalhado com pequenas ferramentas, sem rugas ou rachaduras, de pele suave e tons claros, pintados por pincéis delicados, contornado em apanhados de sensações escorregadias.

O barulho infernal do silêncio me faz estremecer de dor. Faz com que o meu corpo sangre e escorra pelo chão limpo. Ouço o sangue escorrendo e as gotas caindo. O peito incha e, de repente, o coração pulsa freneticamente. A solidão me cerca. Mostra sua pior face. Transforma-se no desespero insano.

Não há mais espaço. Sinto como se eu nunca tivesse existido. Talvez a minha vida toda tenha sido ilusão. Talvez eu tenha desejado viver. Não há histórias, não há lembranças, as memórias simplesmente não existem. Não existe casa, nem uma cama para eu dormir. Não existe fome, não há comida. Não ouço nada, não sinto nada, não vejo nada. Talvez eu tenha desejado existir. Mas paguei um preço muito caro por sentir. A única certeza é a dor. Meu corpo não existe mais.


Fá e Pat - 25/04/2004.



* imagem tirada do site www.brossa.org *

Terça-feira, Junho 22, 2004

ESPERA

O toque daquelas mãos a fazia estremecer
Aquele sorriso a fazia corar e ela não podia retribuir
Ela percebeu que podia amar de novo
Derramar sobre ele aquela imensurável febre de amor
Porque, de repente, ela percebeu que ele era um ser humano
Ele também errava, ele não era perfeito

Perto dele, todas as suas dúvidas e inseguranças sumiam
Perto dele, seus sonhos se tornavam realidade
Ele era a esperança que ela precisava
Em tudo, desde os menores gestos, ele lhe transmitia paz
Uma paz que ela não tinha sentido antes

Se ela ficasse triste, bastava a lembrança da existência dele
Mesmo que ele não estivesse por perto
E quando ela sentia falta dele, fazia uma oração, em silêncio

Ela já não tinha mais dúvidas
Ela o amava
Aquilo só podia ser amor
O seu amor mais puro

Ela esperaria o tempo que fosse preciso
Mesmo que levasse toda uma vida
Esse era o preço de amar alguém
Ela sabia bem disso

Mas nada a faria desistir
Ela o amava
Como nunca havia amado antes.


Pat - 29/12/02.


Domingo, Junho 13, 2004

PARA SORRIR OU CHORAR

Ela despertou assustada,
como se acabasse de sair de um pesadelo.
Levantou tão rapidamente,
como se o colchão e os lençóis estivessem em brasa.
Ela correu para lavar o rosto,
pois o suor ainda estava quente.
As sandálias continuavam intactas,
os pés tocavam o chão frio,
corriam em busca de ajuda.
A água batia em seu rosto,
que logo esquentava,
tamanho o calor exalado pela sua pele.
A boca estava seca,
mas nem uma pedra de gelo tirada das calotas polares
poderia aliviar tal agonia.
Ela olhou em volta,
não viu ninguém.
Estava sozinha.
"E agora?", pensou.
Pela casa escura ela tateava a parede.
E suas mãos tocaram o metal frio da janela.
Ela abriu o trinco e viu as janelas baterem na parede do lado de fora.
O estrondo se reverteu em um eco,
que entrou pela casa,
junto com o vento da primavera.
Ela colocou todo o colo para fora,
sentiu o vento no rosto.
Talvez assim ela conseguisse respirar.
Mas o vento trouxe aquele perfume
e a imagem se refletiu no céu nublado.
Ela quis cair,
mas sentiu algo segurá-la.
Ainda era a fé,
talvez fosse o amor.
Então as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.
E ela chorou sem cessar durante muito tempo.
Horas, dias, talvez semanas,
ela já não contava.
Só queria viver ali novamente,
só queria dormir de novo.
Até que ela percebeu que nunca mais conseguiria dormir.
Estava apaixonada!
Ela sonhara com ele.


Pat - 26/09/2003



NÓS




"A vida é curta demais para
eu ler todo o grosso dicionário
a fim de por acaso descobrir
a palavra salvadora."
- Clarice Lispector


Pat
"Eu que já não quero mais
ser um vencedor,
levo a vida devagar
pra não faltar amor."
- Marcelo Camelo


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