QUASE DE VERDADE
"Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." - Clarice Lispector
Sexta-feira, Julho 30, 2004

A cidade sem nome

A inexprimível facilidade de se concentrar na futilidade é tão inconseqüente que marca convulsivamente todos os desejos soltos de um corpo na calçada. Só que não há corpo. Nem mesmo, há calçada.
Tradições e festejos são esquecidos na irreverência de qualquer normalidade, o balanço do parque está vazio. Peças enferrujadas, tábuas caídas e enterradas no chão, no amontoado de folhas pútridas que se recolhem sobre ela.
A rua não anda sobressaltada pelos paralelepípedos que lhe faltam, não manca, nem titubeia quando aparecem seus buracos e não acha graça por ser tão banguela.
Os postes sem luz servem de guarda-chuva contra os respingos das águas do pequeno rio, escondido ao final da ladeira, revoam num displicente passo de dança até tentar o céu e cair na rua. A desertificação das esquinas não justifica a lama que se forma em pequenas poças. Ali não chove, ali não venta, ali não se anda. Mesmo as pequenas gotas que invadem a rua são queimadas pelo sol sempre presente.
As fachadas gastas, desmaltadas, crescidas e desaprumadas entortam a paisagem que sempre fora reta, esbelta, altiva e inalcançável. Naquelas portas passaram inumeráveis pessoas alegres, afetadas pelos seus afazeres, absorvidas em seus cantos mais escuros ou expostas com violência para os outros.
Passados eram transformados em esperanças de futuros promissores, em anseios de desejos a serem cumpridos, mas logo esquecidos nos jantares deleitosos que se estendiam noite a fora, entre jardins e salas meio iluminadas.
A surpresa de tempos vistosos que não viriam chegou logo aos portões da cidade. Na praça de fronte à Igreja a grama murchou rapidamente, o padre se deslocou para outra paróquia, as portas de tão alta Casa foram fechadas e lacradas por santas e ameaçadoras mãos, fiéis necessitados deixados do lado de fora, na verdade, afastados da luz e escorraçados ao relento. De volta à suas casas, não lhes restavam mais amarras onde se segurar, o que já desandava por forças naturais, por ação do tempo, por motivo de ocorrência normal, agora parecia impulsionado por outras entidades.
O desalento foi geral, as alegrias contadas nas ruas resumiam-se a pequenos causos esquecidos com muita rapidez, crianças não brincavam mais de pique-esconde, pois agora tinham medo dos antigos esconderijos e de prováveis sumiços.
Os comerciantes fechavam suas lojas mais cedo e já não havia mais bêbados circulando pela cidade, alguns poucos moradores creditaram votos de boa confiança a esta situação, a baderna diminuiu e não aconteciam mais roubos, ou qualquer outro tipo de infração na cidade.
Tempos calmos, diziam os mais ou menos novos. Tempos estranhos, diziam os mais velhos.
E assim se estendiam os dias ¿ lamurientos ao sol, escorrendo devagar por entre olhares cansados e tediosos, injustos eram os minutos que tortuosamente se demoravam em longos segundos. Todos os afazeres domésticos eram rotineiramente alongados durante o dia, esticados como elástico, mas com uma lentidão exasperante, as senhoras donas-de-casa sentavam-se às janelas e observavam ao longe, algo que um dia chegaria, talvez alguém para dar um novo alento à cidade. Obviamente, a espera era inútil e mais usada como desculpa pela apatia, do que como real motivo de algum tipo de otimismo que pudesse surgir.
No fundo, entre um momento de vazio no olhar e a volta à realidade, exatamente neste momento as pessoas da cidade já sabiam, como uma sensação premonitória de que tudo se findava, que tudo se esvaia e atingia o seu fim.
E foi essa inexprimível facilidade de se concentrar na futilidade suspirante de uma fantasia longínqua, que deu fim à cidade. Seus poços secaram, suas perfumarias perderam o cheiro, sua comida já não tinha mais gosto, seus sentimentos não se expressavam mais, o que era vivo se tornou fantasmático e de fantasma viveram os últimos diálogos daqueles pobres cidadãos. Os que ainda não haviam abandonado a cidade, em poucos anos morreram.
Diz-se, pelas cidades vizinhas, que tudo ali se matou, que a cidade cometeu suicídio aos poucos. Exagero de uns, verdade para outros, enfim, o que se conta e se ouve ainda nos dias de hoje é que morreram sem saber o porquê e nisso eu acredito.
FCV
30/07/2004


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